A pergunta chega pronta: "Doutor, quais exames eu preciso fazer?" A resposta honesta é outra pergunta: quantos anos você tem, e o que já aconteceu na sua história e na da sua família?
Rastreamento é isso — procurar doença em quem não tem sintoma. Só vale a pena quando o exame encontra cedo algo que muda de desfecho por ter sido encontrado cedo. Fora disso, exame demais gera achado irrelevante, ansiedade e investigação em cascata.
O que segue é o esqueleto. A periodicidade final é individual: quem tem história familiar de câncer de mama, trombose, osteoporose precoce ou doença da tireoide sai desse calendário — normalmente para começar antes.
Dos 20 aos 29
Consulta ginecológica anual, mesmo sem queixa. É nela que entram contracepção, ciclo, ISTs, vacinação e a conversa que não cabe em exame nenhum.
Rastreio do colo do útero. O Ministério da Saúde recomenda o citopatológico (Papanicolau) dos 25 aos 64 anos: dois exames anuais e, se ambos normais, a cada três anos. Algumas sociedades começam aos 21 em quem já iniciou vida sexual. O teste de HPV-DNA vem substituindo a citologia em várias redes — é mais sensível e permite intervalo maior.
Vacina de HPV, se ainda não tomada. Está no calendário público até os 19 anos e disponível na rede privada depois disso.
Sorologias de IST conforme exposição: HIV, sífilis, hepatites B e C.
O que não entra: ultrassom pélvico de rotina em quem não tem sintoma, e dosagem hormonal "para ver como estão os hormônios". Ciclo regular já é o melhor exame hormonal que existe.
Dos 30 aos 39
Tudo do item anterior, mais o começo do olhar metabólico:
- Glicemia de jejum (e hemoglobina glicada se houver risco)
- Perfil lipídico — colesterol total, HDL, LDL, triglicérides
- TSH, sobretudo com cansaço, ganho de peso, queda de cabelo ou ciclo alterado
- Hemograma e ferritina em quem tem fluxo menstrual intenso
É também a década de decidir sobre fertilidade com informação em vez de suposição. Se a maternidade está no plano para depois dos 35, vale conversar sobre gestação depois dos 35 antes, não depois.
Dos 40 aos 49
Aqui a lista muda de verdade.
Mamografia. É o ponto onde as recomendações divergem, e você merece saber disso: o Ministério da Saúde recomenda rastreio bienal dos 50 aos 74 e, desde 2025, garante o exame por demanda dos 40 aos 49; a FEBRASGO, a Sociedade Brasileira de Mastologia e o Colégio Brasileiro de Radiologia recomendam anual a partir dos 40. A discordância é sobre quanto benefício populacional justifica quantos exames falso-positivos — não sobre o exame funcionar. Com história familiar de câncer de mama, a conversa começa antes dos 40, em geral dez anos antes da idade do caso na família. Calendário, BI-RADS e mama densa estão detalhados em mamografia: com que idade começar e como ler o resultado.
Rastreio de colo continua — a perimenopausa não suspende nada.
Metabolismo entra em foco. É a década em que a gordura visceral, a pressão e a resistência à insulina começam a subir de forma silenciosa. Glicemia, glicada, lipídios e pressão arterial passam a ser acompanhamento, não curiosidade.
Colonoscopia aos 45, marco atual de início do rastreio de câncer colorretal para risco habitual.
Vitamina D e cálcio quando há fator de risco — não como reflexo.
Dos 50 aos 59
Quase sempre a menopausa já aconteceu ou está acontecendo. O que era rastreio de doença ginecológica passa a incluir o que a queda do estrogênio afeta.
Densitometria óssea. A regra clássica é a partir dos 65 anos. Mas antecipa quem tem menopausa precoce, uso prolongado de corticoide, fratura por trauma mínimo, tabagismo, IMC baixo ou história familiar de fratura de quadril. Vale ler sobre saúde óssea e osteoporose para entender por que os anos logo após a menopausa são os de maior perda.
Perfil cardiometabólico completo, agora sem opcional: pressão, glicada, lipidograma, circunferência abdominal.
Mamografia segue.
Qualquer sangramento depois da menopausa investiga. Não existe "uma vez só, deve ter sido nada". É a regra mais dura da ginecologia — o motivo está em sangramento fora de hora.
Dos 60 em diante
Densitometria entra para todas.
Mamografia continua enquanto houver expectativa de vida e condição de tratar — a idade de parar é decisão clínica, não número fixo.
Rastreio de colo pode ser encerrado aos 64 anos em quem tem histórico adequado de exames normais.
Força, equilíbrio e composição corporal passam a valer tanto quanto exame de sangue. Perda de massa muscular prevê fratura, internação e perda de autonomia melhor que a maioria dos marcadores laboratoriais.
Três exames que quase sempre sobram
CA-125 como rastreio de câncer de ovário. Sobe em endometriose, mioma, gravidez e inflamação. Em mulher sem sintoma, produz muito mais susto que diagnóstico.
Painel hormonal completo para "ver se é menopausa". FSH e estradiol oscilam demais na transição: normais numa semana, alterados na outra. O diagnóstico é clínico.
Ultrassom transvaginal anual de rotina. Excelente para investigar sintoma — sangramento, dor, suspeita de mioma. Como pesca rotineira em quem não tem queixa, encontra achados que não mudam nada e viram cirurgia desnecessária.
O que levar para a consulta
Data da última menstruação ou há quanto tempo parou. Exames anteriores, com data — não só o último. Cirurgias. Medicamentos em uso, incluindo suplemento. E o que houve de câncer de mama, ovário, útero ou intestino na família, de que lado e com que idade.
Com isso na mesa, a lista deixa de ser genérica e vira a sua.


