Duas perguntas chegam toda semana ao consultório. A primeira antes do exame: "Doutor, eu já tenho idade para mamografia?" A segunda depois, com o laudo na mão: "Veio BI-RADS 3. É grave?"
O câncer de mama é o mais frequente entre as brasileiras, sem contar o de pele não melanoma — são mais de 70 mil casos novos por ano, segundo o INCA. Encontrado pequeno e restrito à mama, o tratamento tende a ser menos extenso e as chances de cura são muito maiores. É por isso que a mamografia existe: não para prevenir o câncer, e sim para encontrá-lo antes de ele dar sinal.
Com que idade começar
Aqui as recomendações brasileiras não coincidem, e você merece saber o porquê.
Ministério da Saúde. Desde setembro de 2025, o SUS recomenda rastreamento a cada dois anos dos 50 aos 74 anos — antes o limite era 69. Entre 40 e 49 anos, a mamografia passou a ser garantida por demanda: a mulher sem sintoma que quiser fazer tem acesso, depois de conversar com o profissional sobre benefícios e riscos. A faixa dos 40 concentra quase um quarto dos casos, e esse foi o argumento da mudança.
Sociedades médicas. A FEBRASGO, a Sociedade Brasileira de Mastologia e o Colégio Brasileiro de Radiologia recomendam mamografia anual a partir dos 40 anos.
A divergência não é sobre o exame funcionar. É sobre quanto benefício justifica quantos exames: rastrear mais cedo e com mais frequência encontra mais tumores, e também gera mais chamadas para exame complementar e mais biópsias que acabam benignas. Na consulta, essa conta se faz com a sua história — não por decreto.
Quando o calendário muda: parente de primeiro grau com câncer de mama ou de ovário, sobretudo antes da menopausa; mutação genética conhecida na família (como BRCA1 e BRCA2); radioterapia no tórax antes dos 30 anos. Nesses casos o rastreio começa antes — em geral aos 30, ou dez anos antes da idade do caso na família — e pode incluir ressonância magnética anual.
O roteiro completo do que fazer em cada década está em quais exames fazer em cada fase da vida.
Como ler o BI-RADS
BI-RADS é a escala padronizada que o radiologista usa para dizer o que viu e o que fazer em seguida. O número não é a gravidade da doença; é a conduta recomendada.
| Categoria | O que quer dizer | O que se faz |
|---|---|---|
| 0 | Avaliação incompleta | Complementar com outras incidências ou ultrassom |
| 1 | Negativo | Seguir o rastreio habitual |
| 2 | Achado benigno (cisto, linfonodo, calcificação benigna) | Seguir o rastreio habitual |
| 3 | Provavelmente benigno — chance de câncer de até 2% | Controle de curto prazo, em geral em 6 meses |
| 4 | Suspeito (subdividido em 4A, 4B e 4C, em ordem crescente) | Biópsia |
| 5 | Altamente suspeito | Biópsia |
| 6 | Câncer já confirmado por biópsia | Planejamento do tratamento |
Dois pontos que costumam assustar sem motivo:
BI-RADS 0 não é resultado ruim. Significa que o radiologista precisa de mais uma imagem para concluir. Na maioria das vezes, a imagem complementar resolve e o laudo vira 1 ou 2.
BI-RADS 3 não pede biópsia. O achado tem altíssima probabilidade de ser benigno; o controle é para confirmar que ele não muda. Ficando estável por cerca de dois anos, volta-se à rotina.
Já o 4 e o 5 pedem biópsia, que na maior parte das vezes é feita por agulha, com anestesia local e sem internação. E 4A é uma categoria em que a maioria das biópsias vem benigna.
Mama densa
O laudo também classifica a densidade da mama, de A (quase toda gordura) a D (extremamente densa). Ter mama densa é comum, sobretudo antes da menopausa, e não é doença.
Ela importa por dois motivos: o tecido denso pode esconder um nódulo na mamografia, e a densidade alta é um fator de risco modesto por si só. Em mama densa, as sociedades consideram complementar com ultrassom em casos selecionados. Mas o ultrassom não substitui a mamografia — é a mamografia que mostra as microcalcificações, às vezes o primeiro sinal de um tumor inicial.
E o autoexame?
Estudos grandes mostraram que o autoexame feito como técnica mensal, por si só, não reduz a mortalidade por câncer de mama. O que se recomenda hoje é outra coisa: conhecer a própria mama — olhar e tocar no dia a dia, sem roteiro rígido, para notar o que mudou.
O que merece consulta, sem esperar a próxima mamografia:
- Nódulo endurecido, que não some depois da menstruação
- Pele retraída, enrugada ou com aspecto de casca de laranja
- Mamilo que passou a ficar retraído ou mudou de forma
- Secreção espontânea, de um lado só, transparente ou com sangue
- Caroço na axila
- Mudança de tamanho ou formato de uma das mamas
Dor isolada, que piora antes da menstruação e acomete as duas mamas, quase sempre tem causa hormonal benigna. Ainda assim, dor que não passa merece avaliação.
Com sintoma, o exame deixa de ser rastreio e passa a ser diagnóstico — vale para qualquer idade, inclusive abaixo dos 40. Mais sobre quando um sinal do corpo pede investigação em o corpo muda: o que é esperado e o que investigar.
Dúvidas práticas
Dói? A compressão incomoda por alguns segundos. Marcar o exame fora da semana antes da menstruação, quando a mama está mais sensível, ajuda.
Quem tem prótese pode fazer? Pode, e deve seguir o mesmo calendário. Avise na marcação: o técnico usa incidências próprias para afastar o implante.
Quem faz reposição hormonal precisa de mais cuidado? Precisa de mamografia em dia antes de começar e durante o uso, como qualquer mulher na faixa de rastreio. O que se sabe sobre o risco está em reposição hormonal faz mal?.
Leve os exames anteriores. Comparar com a imagem de um ou dois anos atrás é o que mais ajuda o radiologista a separar o que é seu do que é novo.
Na prática
Se você tem 40 anos ou mais, a pergunta não é se a mamografia é para você, mas com que frequência — e essa resposta depende da sua história familiar, da densidade da sua mama e do que você valoriza na conta entre benefício e exame a mais. Leve essa conversa para a consulta ginecológica, junto com os laudos antigos.
E o laudo que chegou com um número que você não entendeu não precisa esperar a próxima consulta de rotina para ser explicado.


