A pergunta costuma chegar assim: "Doutor, eu parei o anticoncepcional. Já posso tentar?" Quase sempre pode. Mas a pergunta que vale mais é outra: o que vale resolver antes?

As primeiras semanas de gestação são justamente as de formação dos órgãos do bebê, e muitas mulheres só descobrem que estão grávidas depois delas. É por isso que o cuidado que faz mais diferença acontece antes, na chamada consulta pré-concepcional. O ideal é marcá-la uns três meses antes de começar a tentar, para dar tempo de corrigir o que aparecer.

O que se avalia na consulta

Não é um pacote fixo. A conversa parte da sua idade, do seu histórico e do que você já tem de exame. Em geral, passa por estes pontos.

Ácido fólico

É a recomendação mais conhecida, e com razão: o ácido fólico reduz o risco de defeitos de fechamento do tubo neural, como a espinha bífida. A dose habitual é de 400 microgramas por dia, começando pelo menos um mês antes de tentar e seguindo nas primeiras semanas da gestação.

Há situações em que a dose é maior, por exemplo quando já houve uma gestação com esse tipo de problema ou se você usa certos medicamentos. Nesses casos, a dose é definida pelo médico: não aumente por conta própria.

Tireoide

A tireoide influencia a fertilidade, o risco de aborto e o desenvolvimento do bebê. Um simples exame de sangue, o TSH, mostra se ela está funcionando bem. Se houver hipotireoidismo, tratá-lo e ajustar a dose antes de engravidar é bem mais tranquilo do que descobrir e corrigir no meio da gestação.

Glicemia e peso

Diabetes mal controlado no início da gestação aumenta o risco de malformações e de complicações. Por isso a glicemia de jejum (e a hemoglobina glicada, quando há risco) entra na lista. Quem tem sobrepeso não precisa chegar a um número ideal na balança: perder uma parte do peso, de forma gradual, já melhora a ovulação e reduz o risco de diabetes gestacional e de pressão alta.

Vitamina D, ferro e anemia

O hemograma e a ferritina mostram se você começa a gestação com reservas de ferro. A vitamina D costuma ser dosada, e a suplementação depende do valor encontrado. Não existe dose universal.

Sorologias e vacinas

O exame de sangue revela se você já tem defesa contra infecções que podem afetar o bebê:

  • Rubéola e toxoplasmose
  • Citomegalovírus
  • Sífilis, HIV e hepatites B e C

Quem não tem imunidade à rubéola ou à varicela precisa se vacinar antes. São vacinas de vírus vivo, que não se aplicam na gestação, e recomenda-se aguardar cerca de um mês depois delas para começar a tentar. Já a vacina da hepatite B, a da gripe e a dTpa podem ser atualizadas conforme o calendário.

Toxoplasmose merece uma nota: se o exame mostra que você não teve a infecção, a prevenção é prática, com carne bem passada, mãos e alimentos lavados e luvas para mexer na terra.

Medicamentos que mudam o plano

Alguns remédios de uso contínuo precisam de troca ou de ajuste antes da gestação, entre eles certos antiepilépticos, a isotretinoína (para acne), alguns anti-hipertensivos e anticoagulantes. Nunca interrompa um remédio sozinha por medo: leve a lista completa à consulta, inclusive suplementos e fitoterápicos.

Colo do útero e saúde ginecológica

O Papanicolau precisa estar em dia, e é o momento de tratar qualquer corrimento ou infecção. Detalhes do rastreio estão em quais exames fazer em cada fase da vida e no check-up ginecológico.

E a reserva ovariana?

O AMH e a contagem de folículos antrais (feita no ultrassom) estimam quantos óvulos ainda existem. Fazem sentido principalmente depois dos 35 anos, com ciclos irregulares, cirurgia ovariana prévia ou história familiar de menopausa precoce.

Vale ter clareza do que esse resultado diz e do que não diz. Ele indica a quantidade, e não a qualidade dos óvulos, e sozinho não prevê com precisão a chance de engravidar naturalmente. Um AMH baixo não significa que não dá; um AMH normal não garante nada. Ele serve para orientar quando investigar com mais pressa. Para essa faixa etária, o que muda no planejamento está em gestação depois dos 35.

Hábitos que contam

  • Álcool: não há quantidade segura comprovada na gestação, então o ideal é parar ao começar a tentar
  • Cigarro: reduz a fertilidade e aumenta o risco de aborto, parto prematuro e baixo peso ao nascer
  • Cafeína: até cerca de 200 mg por dia (dois cafés pequenos) é considerado moderado
  • Atividade física: continua valendo, com ajuste de intensidade quando a gestação começa
  • Sono e estresse: pesam no ciclo mais do que parece

Parei o anticoncepcional. E agora?

Com a pílula, o anel ou o adesivo, a ovulação costuma voltar em poucas semanas, e algumas mulheres engravidam já no primeiro mês. Com o DIU, a fertilidade volta logo depois da retirada. Não é necessário esperar meses de "limpeza" do anticoncepcional. Mais sobre o tema em contracepção e DIU.

Quando pedir ajuda para engravidar

Casal saudável tem, em média, cerca de 20% de chance por ciclo de engravidar. Por isso, demorar alguns meses é comum e não indica problema. A investigação de fertilidade em geral se inicia:

  1. Após 12 meses de tentativas regulares, se você tem menos de 35 anos
  2. Após 6 meses, se tem 35 anos ou mais
  3. Mais cedo, se há ciclos muito irregulares ou ausentes, endometriose conhecida, cirurgia pélvica ou tubária prévia, ou alguma questão de saúde do parceiro

Na prática

  1. Marque a consulta pré-concepcional cerca de três meses antes de começar a tentar
  2. Comece o ácido fólico assim que decidir, sem esperar a consulta
  3. Leve exames anteriores e a lista de todos os medicamentos que usa
  4. Atualize vacinas que exijam intervalo antes da gestação
  5. Faça as pazes com a ideia de que planejar não é controlar tudo: é tirar do caminho o que dá para tirar

E se o teste já deu positivo sem planejamento, nada disso é motivo de culpa. O próximo passo é iniciar o pré-natal o quanto antes.