O pré-natal existe para uma finalidade simples: identificar cedo o que pode dar errado. As duas maiores causas de morte materna no Brasil — hipertensão na gestação e hemorragia — são em grande parte previsíveis e manejáveis quando há acompanhamento adequado.

O calendário

Até 28 semanas — consultas mensais. De 28 a 36 semanas — quinzenais. De 36 semanas ao parto — semanais.

Gestações de alto risco exigem intervalos mais curtos, ajustados ao quadro.

O que se acompanha em cada consulta

Pressão arterial, peso e ganho ponderal, altura uterina, batimentos cardíacos fetais, movimentação fetal a partir do segundo trimestre, edema e sintomas de alerta. E, sempre, tempo para as dúvidas — que mudam a cada trimestre.

Exames por trimestre

Primeiro trimestre. Tipagem sanguínea e fator Rh com Coombs indireto, hemograma, glicemia de jejum, TSH, sorologias (sífilis, HIV, hepatites B e C, toxoplasmose, rubéola), urina tipo 1 e urocultura. Ultrassom morfológico de primeiro trimestre (11–14 semanas), com translucência nucal, osso nasal e Doppler das artérias uterinas — que estima risco de pré-eclâmpsia e permite iniciar profilaxia com AAS quando indicado. NIPT (teste genético não invasivo) quando indicado ou desejado.

Segundo trimestre. Morfológico de segundo trimestre (20–24 semanas), o exame mais detalhado da anatomia fetal, com medida do colo uterino. Teste oral de tolerância à glicose (24–28 semanas) para diabetes gestacional. Repetição de sorologias.

Terceiro trimestre. Ultrassons de crescimento e vitalidade, Doppler quando indicado, hemograma, repetição de sorologias, pesquisa de estreptococo do grupo B (35–37 semanas), avaliação de apresentação fetal e planejamento do parto.

O que torna uma gestação de alto risco

  • Idade materna acima de 35 anos, e mais ainda acima de 40
  • Hipertensão crônica ou pré-eclâmpsia em gestação anterior
  • Diabetes prévio ou gestacional
  • Obesidade, doenças da tireoide, doenças autoimunes, trombofilias
  • Cardiopatia, nefropatia, epilepsia
  • Gestação múltipla
  • Histórico de prematuridade, perdas gestacionais de repetição ou natimorto
  • Mioma volumoso, malformação uterina, cirurgia uterina prévia
  • Restrição de crescimento fetal ou malformação identificada
  • Placenta prévia ou acretismo

Alto risco não significa gestação condenada. Significa vigilância mais próxima, exames mais frequentes e um plano de parto pensado com antecedência — e, na maioria esmagadora dos casos, desfecho excelente.

Sinais de alerta — procurar atendimento imediatamente

  • Sangramento vaginal em qualquer momento
  • Perda de líquido pela vagina
  • Contrações regulares antes de 37 semanas
  • Dor de cabeça forte e persistente, visão turva ou pontos luminosos
  • Dor forte "na boca do estômago"
  • Inchaço súbito de rosto e mãos
  • Redução ou ausência de movimentação fetal
  • Febre

Os quatro sintomas do meio dessa lista, juntos, são o quadro clássico da pré-eclâmpsia grave — a emergência obstétrica que mais mata no Brasil.

Cuidados que reduzem risco de verdade

Ácido fólico iniciado idealmente antes da concepção; vacinas (dTpa a cada gestação, influenza, covid-19, e hepatite B se não imunizada); atividade física regular na ausência de contraindicação; AAS em dose baixa a partir de 12 semanas para quem tem risco de pré-eclâmpsia; controle rigoroso de glicemia e pressão; zero álcool e zero tabaco.

Sobre a via de parto

A escolha é tomada em conjunto, considerando a evolução da gestação, a apresentação fetal, o histórico obstétrico, as condições clínicas e a sua preferência informada. O compromisso é o mesmo em qualquer via: chegar ao fim com mãe e bebê bem — e com você tendo entendido e participado de cada decisão.