Em julho de 2002, um braço do estudo WHI (Women's Health Initiative) foi interrompido e divulgado como uma bomba: a terapia hormonal aumentaria câncer de mama e eventos cardiovasculares. O uso caiu mais de 70% no mundo em poucos meses.
Duas décadas depois, o quadro é outro — e a correção veio dos próprios pesquisadores.
O que o estudo realmente testou
A população do WHI tinha em média 63 anos e estava, em boa parte, com mais de 10 anos de menopausa. Muitas já tinham hipertensão, obesidade ou doença cardiovascular subclínica. O esquema usado foi estrogênio conjugado equino oral com acetato de medroxiprogesterona — não o que se prescreve preferencialmente hoje.
Ou seja: testou-se começar hormônio tarde, em mulher com risco já instalado. E a resposta a essa pergunta é diferente da resposta à pergunta clínica real, que é: uma mulher de 50 anos, sintomática, recém-entrada na menopausa, se beneficia?
A janela de oportunidade
As reanálises por faixa etária mostraram um padrão claro: quem iniciou entre 50 e 59 anos, ou nos primeiros 10 anos de menopausa, teve balanço favorável — inclusive com tendência de redução de mortalidade geral.
Daí o conceito de janela de oportunidade, hoje adotado pelas principais sociedades do mundo, incluindo a brasileira: iniciar cedo é seguro e eficaz; iniciar tarde, em vaso já comprometido, não.
E o câncer de mama?
O dado que menos se conta: no braço de mulheres histerectomizadas, que usaram estrogênio isolado, não houve aumento de câncer de mama — e no seguimento de longo prazo houve tendência de redução.
No braço combinado (estrogênio + progestagênio), houve aumento após cerca de 5 anos de uso, de magnitude pequena. Para dimensionar: o risco adicional atribuído é comparável ao de tomar uma dose de álcool por dia, ao sobrepeso ou ao sedentarismo — fatores que raramente provocam a mesma reação.
Isso não significa que o risco seja zero. Significa que ele precisa ser comparado com o benefício, caso a caso, em vez de decidido pelo medo.
O que reduz risco na prática
- Via transdérmica (gel ou adesivo) em vez de oral: não faz primeira passagem hepática e praticamente não aumenta risco de trombose
- Progesterona micronizada em vez de progestagênios sintéticos mais antigos, com perfil mais favorável na mama
- Menor dose eficaz, ajustada nas primeiras consultas
- Início dentro da janela
- Reavaliação periódica, com mamografia e exames em dia
Quem não deve fazer
Câncer de mama atual ou prévio, câncer de endométrio hormônio-dependente, sangramento vaginal sem diagnóstico, trombose ou embolia em atividade, infarto ou AVC prévios, doença hepática grave.
Mesmo nesses casos existem alternativas: medicações não hormonais para os fogachos e, para os sintomas vaginais, estrogênio local de absorção mínima — que pode ser discutido, inclusive, com o oncologista.
Como decidir
Três perguntas resolvem quase tudo:
- Você tem sintomas que atrapalham sua vida? Se não, não há motivo para tratar.
- Você está dentro da janela? Menos de 60 anos ou menos de 10 anos de menopausa.
- Você tem alguma contraindicação? Isso se responde com história clínica, exame e exames complementares.
Ter medo de hormônio não é irracional — o medo foi construído com uma manchete real. Mas decidir hoje com a informação de 2002 significa abrir mão de um tratamento eficaz por um motivo que a própria ciência já corrigiu.


