A síndrome dos ovários policísticos (SOP) é um distúrbio hormonal e metabólico que afeta cerca de 1 em cada 10 mulheres em idade reprodutiva. O nome confunde: os "cistos" vistos no ultrassom são, na verdade, folículos que pararam no meio do caminho por falta do estímulo hormonal certo para ovular.
Ou seja: dá para ter ovários de aspecto policístico e não ter a síndrome. E dá para ter SOP com ovários de aspecto normal.
Como o diagnóstico é feito
Usam-se os critérios de Rotterdam — pelo menos dois dos três:
- Ciclos irregulares ou ausência de ovulação — ciclos com mais de 35 dias, menos de 8 menstruações por ano, ou meses sem menstruar
- Hiperandrogenismo — clínico (acne persistente, pelos em face/tórax/abdome, queda de cabelo com padrão masculino) ou laboratorial
- Ovários com aspecto policístico ao ultrassom
E, obrigatoriamente, a exclusão de outras causas: doença da tireoide, prolactina alta, hiperplasia adrenal congênita. Sem esse passo, o diagnóstico não está fechado.
O que costuma incomodar
- Menstruação que atrasa, some ou vem em intervalos imprevisíveis
- Acne que persiste depois da adolescência, principalmente no queixo e na mandíbula
- Pelos mais grossos e escuros em lugares que antes não tinham
- Queda de cabelo no topo da cabeça
- Dificuldade em perder peso e ganho concentrado no abdome
- Manchas escuras e aveludadas no pescoço e nas axilas (acantose nigricans) — sinal de resistência à insulina
- Dificuldade para engravidar por ausência de ovulação
Por que a SOP é mais que um problema de ciclo
Em boa parte das mulheres com SOP há resistência à insulina: o corpo produz mais insulina para o mesmo efeito, e o excesso de insulina estimula o ovário a produzir mais androgênios — o que perpetua o ciclo do problema.
Isso explica por que a SOP se associa a maior risco de diabetes tipo 2, dislipidemia, esteatose hepática, hipertensão e síndrome metabólica, e por que o tratamento não se resume a "regular a menstruação". Anos de ciclos sem ovulação também expõem o endométrio a estrogênio sem contraposição, aumentando o risco de hiperplasia endometrial — outro motivo para não deixar o quadro solto.
Tratamento — depende do objetivo
Base para todas. Alimentação com controle de carga glicêmica, atividade física regular (força + aeróbio) e sono. Uma perda de 5% a 10% do peso, quando há excesso, é capaz de restabelecer a ovulação sozinha. É a intervenção mais poderosa disponível — e a mais subestimada.
Quem não quer engravidar agora. Contraceptivo hormonal combinado regulariza o ciclo, protege o endométrio e melhora acne e pelos. Progestagênio isolado é alternativa quando há contraindicação ao estrogênio.
Quem quer engravidar. Indutores de ovulação (letrozol como primeira escolha; citrato de clomifeno como alternativa), com acompanhamento por ultrassom. Metformina entra quando há resistência insulínica significativa.
Pele e pelos. Antiandrogênios, tratamento dermatológico e métodos definitivos de depilação, sempre associados ao controle metabólico.
A SOP não some — mas se controla muito bem. E o controle metabólico feito dos 20 aos 40 anos é o que decide a saúde cardiovascular dos 50 em diante.


