O ovário funciona por ciclos: a cada mês recruta folículos, amadurece um, libera o óvulo e forma o corpo lúteo. Cada uma dessas etapas pode gerar uma estrutura cheia de líquido — um cisto funcional, que é fisiologia, não doença.

Por isso o primeiro passo diante de um cisto não é operar: é caracterizar.

Tipos

Funcionais (a grande maioria). Cisto folicular e cisto de corpo lúteo. Medem em geral menos de 5 cm, aparecem e desaparecem em um a três ciclos. Não precisam de tratamento.

Endometrioma. Cisto de conteúdo espesso, formado pela endometriose no ovário. Costuma vir acompanhado de cólica intensa e dor na relação.

Teratoma (cisto dermoide). Benigno, congênito, pode conter tecidos diversos. Cresce devagar; a indicação de retirada depende do tamanho e do risco de torção.

Cistoadenoma. Tumor benigno de epitélio, seroso ou mucinoso, que pode atingir grandes volumes.

Lesões suspeitas. Cistos com áreas sólidas, septos espessos, muita vascularização ao Doppler ou associados a líquido livre na pelve exigem avaliação cuidadosa e, muitas vezes, encaminhamento especializado.

Sintomas

Grande parte é assintomática. Quando há sintoma:

  • Dor ou peso de um lado da pelve
  • Dor durante a relação
  • Aumento do volume abdominal
  • Alteração do ciclo
  • Vontade frequente de urinar

Dor súbita e intensa, com náusea e vômito, é emergência: pode ser torção do ovário ou rotura de cisto, e precisa de avaliação imediata em pronto-socorro.

Investigação

O ultrassom transvaginal é o exame principal e, na maioria das vezes, o único necessário. Ele descreve tamanho, conteúdo, paredes, septos e vascularização — os elementos que separam o benigno do suspeito.

Em casos selecionados entram ressonância magnética e marcadores tumorais (CA-125, HE4). Vale lembrar que o CA-125 sobe em endometriose, miomas e até na menstruação: isolado, não diagnostica nada.

A idade muda a leitura. Antes da menopausa, cistos simples são quase sempre funcionais. Depois da menopausa, o ovário não deveria mais formar cistos funcionais — então o mesmo achado exige mais atenção.

Conduta

  • Observar: cisto simples, pequeno, em mulher na fase reprodutiva. Repete-se o ultrassom após dois ou três ciclos
  • Contraceptivo: não dissolve o cisto existente, mas evita a formação de novos cistos funcionais em quem tem recorrência frequente
  • Cirurgia por videolaparoscopia: cistos persistentes, maiores que 6-8 cm, sintomáticos, com características suspeitas, ou em risco de torção

Quando a cirurgia é necessária, o princípio é preservar o ovário: retira-se o cisto e mantém-se o tecido ovariano saudável, protegendo a reserva ovariana — especialmente importante em mulheres que ainda pretendem engravidar.