A gestação após os 40 deixou de ser exceção. É a faixa etária que mais cresce em número de partos no Brasil. As perguntas mudaram: não é mais "pode?", e sim "quanto tempo leva, o que muda e o que dá para antecipar?".

Chance por ciclo, sem tratamento

  • Aos 25 anos: cerca de 25%
  • Aos 35 anos: cerca de 15%
  • Aos 40 anos: cerca de 5%
  • Aos 43 anos: abaixo de 2%

Note que a chance não é zero em nenhum ponto — ela cai, e o tempo médio até engravidar aumenta.

Por isso o critério de investigação muda: até 35 anos, investiga-se após 12 meses de tentativas; entre 35 e 39, após 6 meses; a partir dos 40, imediatamente. Esperar "mais um pouco" nessa idade custa caro.

Por que a idade pesa

A mulher nasce com todos os óvulos que terá. O que cai com o tempo não é só a quantidade — é a qualidade, com mais erros na divisão cromossômica. Daí decorrem tanto a menor chance de implantação quanto a maior taxa de abortamento.

Risco de abortamento espontâneo: ~15% aos 25 anos, ~25% aos 35, ~40% aos 40, mais de 50% aos 43.

O que se ganha investigando cedo

Reserva ovariana. AMH (hormônio antimülleriano) e contagem de folículos antrais ao ultrassom estimam quanto tempo resta. Não predizem qualidade nem garantem gestação, mas orientam a estratégia e o senso de urgência.

Avaliação do casal. Espermograma — o fator masculino responde por cerca de 40% dos casos de dificuldade. Investigar só a mulher é um erro frequente.

Avaliação uterina e tubária. Ultrassom, histerossalpingografia e, quando indicado, histeroscopia para pólipos, miomas submucosos, septos e aderências que podem ser corrigidos.

Saúde de base. Tireoide, glicemia, pressão, peso, vitamina D, revisão de medicamentos. Ajustar isso antes melhora o desfecho de forma mensurável.

Riscos na gestação — e o que se faz por eles

Aumentam diabetes gestacional, hipertensão e pré-eclâmpsia, placenta prévia, prematuridade, restrição de crescimento e taxa de cesárea.

O pré-natal responde a cada um:

  • Ultrassom de 11–14 semanas com Doppler das artérias uterinas → estima risco de pré-eclâmpsia e indica AAS em dose baixa a partir de 12 semanas, intervenção com redução comprovada de risco
  • NIPT → rastreio de aneuploidias com sensibilidade muito superior à do rastreio combinado, feito com uma coleta de sangue
  • Teste de tolerância à glicose entre 24 e 28 semanas
  • Vigilância de crescimento fetal no terceiro trimestre
  • Consultas mais frequentes e planejamento antecipado do parto

O risco em perspectiva

O risco de síndrome de Down aos 40 anos é de cerca de 1 em 100. Dito assim, assusta. Dito de outro jeito: em 99 de cada 100 gestações isso não acontece.

Não se trata de minimizar — trata-se de transformar estatística em conduta: qual exame, em que semana, com qual consequência prática.

Quando o caminho é reprodução assistida

Se após a investigação houver fator claro, ou se as tentativas não derem resultado no tempo esperado, a indicação de FIV costuma vir mais cedo nessa faixa etária — justamente porque o tempo tem peso próprio. A discussão sobre óvulos próprios versus doados também aparece, em geral a partir dos 43–44 anos, e merece ser conduzida com franqueza e sem pressa.

A pior estratégia aos 40 é a mais comum: tentar por um ano, ficar em silêncio, e só então procurar ajuda. Nessa idade, investigar cedo é o que preserva opções.