A frase costuma aparecer no fim da consulta, com a mão já na bolsa: "Doutor, e isso de não ter mais vontade nenhuma... é normal?"

Aparece no fim porque parece assunto menor. Não é. Desejo sexual faz parte da saúde, e a queda dele depois dos 40 tem explicação. Merece a mesma seriedade que qualquer outro sintoma.

Primeiro: mudar não é, por si só, doença

O desejo varia ao longo da vida, com o momento, o cansaço e o relacionamento. Com os anos, muitas mulheres passam a ter menos desejo espontâneo e mais desejo responsivo — ele aparece depois que a intimidade começa, não antes. É uma forma normal de funcionar.

O que muda o quadro é o incômodo. Quando a falta de desejo dura meses, é diferente do que você já teve e faz falta para você — não para a expectativa de outra pessoa —, a medicina chama isso de desejo sexual hipoativo. Estudos populacionais estimam que cerca de uma em cada dez mulheres vive essa combinação de desejo baixo com sofrimento, e ela é mais frequente na meia-idade.

Onde entram os hormônios

Estrogênio. A queda na perimenopausa e na menopausa raramente apaga o desejo de forma direta. Ela age pelos lados: calorão que fragmenta o sono, humor instável e, sobretudo, mucosa vaginal mais fina e seca. Quando a relação passa a arder, o corpo aprende a evitar — e o desejo vai junto. É o tema de dor na relação não é frescura.

Testosterona. A mulher produz, nos ovários e nas adrenais, e ela participa do desejo. Mas a queda é gradual: vem desde o início da vida adulta e não despenca na menopausa natural. A exceção é a retirada cirúrgica dos dois ovários, quando a queda é brusca.

Progesterona. Não é hormônio do desejo, e repor progesterona não aumenta a libido.

Tireoide e prolactina. Hipotireoidismo e prolactina alta são causas clássicas, simples de checar e tratáveis.

E onde os hormônios não entram

Esta lista é tão importante quanto a anterior, e costuma ser esquecida:

  • Antidepressivos, principalmente os da classe dos ISRS, estão entre as causas mais comuns. Não é para parar por conta própria — há ajustes possíveis com quem prescreve
  • Anticoncepcional hormonal e alguns anti-hipertensivos, em parte das mulheres
  • Depressão e ansiedade, que reduzem o desejo mesmo sem remédio nenhum
  • Sono ruim e exaustão — a jornada dupla dos 40 cobra aqui
  • Dor na relação, por qualquer causa
  • Diabetes, anemia e ferritina baixa
  • Relacionamento, imagem corporal e história de vida — reais, e também com tratamento

Por isso "é hormonal" é o começo da conversa, não a conclusão.

Como se investiga

A consulta começa pela história, não pelo exame: desde quando, se o desejo sumiu ou mudou de forma, se há dor, secura, calorão ou insônia, que remédios você usa, como estão o humor e a relação.

Depois vem o exame ginecológico. É nele que aparecem atrofia da mucosa, dermatoses da vulva e pontos de dor.

Os exames de sangue são dirigidos: TSH, prolactina, hemograma e ferritina, glicemia e, conforme a fase da vida, avaliação hormonal — que tem leitura diferente antes e depois da última menstruação, como explicado em perimenopausa e menopausa não são a mesma coisa.

Um ponto que costuma surpreender: não existe valor de testosterona no sangue que diagnostique falta de desejo. A dosagem serve de referência antes de um eventual tratamento e para vigiar a dose depois — não para dizer, sozinha, que o problema é hormonal.

O que se trata, e como

O que estiver por trás vem primeiro. Ajustar um remédio, tratar a tireoide, corrigir a anemia, cuidar do sono e da dor. Muitas vezes isso já muda o quadro.

Estrogênio vaginal em dose baixa, quando há secura e ardência. É local e tem absorção mínima — ver síndrome geniturinária da menopausa.

Terapia hormonal da menopausa, quando há indicação pelos sintomas. Não é tratamento de libido, mas melhorar calorão, sono e mucosa costuma ajudar de forma indireta. Os critérios estão em terapia hormonal da menopausa.

Testosterona. O consenso internacional de 2019 sobre testosterona na mulher, endossado por diversas sociedades médicas, reconhece uma indicação com evidência: desejo sexual hipoativo com sofrimento em mulheres na pós-menopausa, depois de afastadas as outras causas. Nesse cenário:

  • a via é transdérmica (gel ou creme), em dose que mantém a testosterona dentro da faixa normal feminina
  • o nível é conferido algumas semanas depois do início
  • a resposta é reavaliada em cerca de seis meses — sem benefício, suspende-se
  • não há no Brasil apresentação aprovada especificamente para mulheres, o que exige critério na prescrição e acompanhamento

Terapia sexual ou de casal, quando o contexto pesa. Ela não substitui a investigação clínica — e a investigação clínica não a substitui.

O que não funciona

Implantes hormonais ("chip") e fórmulas manipuladas com testosterona em dose alta. Não têm evidência de segurança e podem causar acne, queda de cabelo, aumento de pelos e engrossamento da voz, este nem sempre reversível. O Conselho Federal de Medicina veda a prescrição de esteroides androgênicos com finalidade estética, de ganho de massa muscular ou de desempenho esportivo.

Dose acima do fisiológico não aumenta o desejo na mesma proporção. Aumenta os efeitos colaterais.

Na prática

Se o desejo caiu e isso incomoda você, fale — uma frase basta. Leve para a consulta a lista dos remédios que usa e três respostas: desde quando, se há dor ou secura, e como anda o seu sono.

Queda da libido depois dos 40 é comum. Comum não quer dizer que você precise conviver com ela sem entender o porquê.