Cólica menstrual leve, no primeiro dia, que melhora com um analgésico simples e não impede nada: isso é fisiológico. Chama-se dismenorreia primária, decorre das prostaglandinas que contraem o útero, e é comum.

O problema é que essa descrição virou guarda-chuva para tudo — inclusive para dores que não são nada disso.

Os sinais que mudam a conversa

Falta ao compromisso. Se você já faltou ao trabalho, à aula ou a um evento por causa da cólica, esse é o marcador clínico mais forte de gravidade.

Analgésico não resolve. Anti-inflamatório na dose certa não segura a dor.

Piora com os anos. A cólica primária tende a melhorar com a idade e depois de gestações. Dor que piora progressivamente sugere causa secundária.

Dor fora da menstruação. Meio de ciclo, na ovulação, ou dor pélvica constante.

Dor profunda na relação sexual, sobretudo em certas posições.

Dor ao evacuar ou urinar durante a menstruação, às vezes com sangue.

Distensão abdominal cíclica, a "barriga de endometriose".

Cansaço desproporcional no período.

Dificuldade para engravidar.

Três ou mais desses itens já justificam investigação dirigida.

O que pode estar por trás

Endometriose. Tecido semelhante ao endométrio implantado fora do útero, que inflama a cada ciclo. Atinge cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva.

Adenomiose. Endométrio infiltrando a parede muscular do útero. Cursa com cólica intensa e fluxo aumentado, e é mais comum a partir dos 35.

Miomas, sobretudo os que deformam a cavidade.

Doença inflamatória pélvica prévia, com aderências.

Malformações uterinas, quando a dor existe desde a primeira menstruação e é muito intensa.

Como se investiga

Começa pela história bem feita: quando dói, quanto dura, o que melhora, o que impede. Depois, exame ginecológico procurando pontos dolorosos e nódulos.

A imagem confirma: ultrassom transvaginal com preparo intestinal ou ressonância de pelve — sempre com examinador experiente em endometriose, porque esse é o detalhe que muda o resultado. O exame comum de rotina frequentemente vem "normal" em quem tem doença.

Não existe exame de sangue que diagnostique endometriose. O CA-125 é inespecífico e não serve como rastreio.

O que ganha quem investiga cedo

Tratamento no início evita anos de dor, protege a fertilidade e reduz a chance de precisar de cirurgia extensa depois. O bloqueio hormonal — pílula contínua, progestagênio, DIU hormonal — costuma controlar bem a dor. A cirurgia fica para casos selecionados.

E há um ganho menos óbvio: dor crônica não tratada sensibiliza o sistema nervoso. Quanto mais tempo doendo, mais difícil desligar a dor depois — mesmo tratando a causa.

Se a sua menstruação organiza a sua agenda, isso já é um dado clínico. Leve para a consulta com essas palavras: "eu falto por causa da cólica". Costuma ser a frase que muda o rumo da investigação.